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Capítulo 19 — Uma Noite Só Nossa

         A menina ainda fungava baixinho, aninhada no colo de Jorge, com os olhos semicerrados e os dedos agarrados ao tecido macio do pijama cor-de-rosa. O cheiro de lavanda do banho ainda pairava no ar, misturado ao aroma quente do chá que Henrique preparara e deixara sobre a mesa. A luz da sala era suave, amarelada, lançando sombras delicadas nas paredes, como se o mundo lá fora tivesse desacelerado só para eles.

          Jorge afagava os cabelos finos de Alice com movimentos lentos, quase meditativos, enquanto observava Henrique falar sobre trivialidades — o novo vizinho, o tempo, uma receita que queria testar.   Mas por dentro, o coração do ómega batia com um ritmo diferente, mais urgente, mais íntimo. Ele não queria apenas ouvir sobre o dia de Henrique. Queria senti-lo. Queria que aquela noite fosse só deles.

— Amor… achas que eles já estão em casa? — perguntou Jorge, com a voz baixa, quase como quem teme quebrar o encanto da cena.

          Henrique olhou para ele com um sorriso distraído, sem perceber o peso por trás da pergunta.

— Eles estão bem de certeza — respondeu, pegando a caneca de chá.

          Jorge hesitou. O calor da menina em seus braços, o cansaço nos ombros, o desejo contido… tudo se misturava. Ele sorriu, mas havia algo nos olhos — um brilho de quem está prestes a pedir algo precioso.

— Eu sei… — murmurou. — Mas preciso pedir um favor.

          Henrique arqueou uma sobrancelha, curioso.

— E posso saber o quê? Não podes deixar o teu amigo sozinho uns tempos?

— Ciúmes? — Jorge brincou, mas logo a expressão se tornou séria. Ele ajustou Alice em seu colo, como se o gesto lhe desse coragem. — Queria pedir para ficarem com a Alice hoje à noite.

          Henrique franziu o cenho, ainda sem entender.

— Porquê, lobinho?

           Jorge respirou fundo. O silêncio entre eles adensou-se, como se o ar tivesse ficado mais denso.

— Queria ficar só contigo… sem preocupações… sem medo de ser interrompidos. Quero concentrar-me só em ti. Tenho medo do que possa acontecer e ela perceber.

           O cheiro de morangos intensificou-se, involuntário, misturado a algo mais quente, mais urgente — não era medo, era desejo e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Henrique reconheceu-o de imediato.

          A confissão pairou no ar como uma nota suspensa. Henrique pousou a caneca, os olhos agora fixos em Jorge.

— Compreendo — disse Henrique, com uma ternura que não precisava de mais palavras. Ele aproximou-se, ajoelhou-se ao lado do sofá e tocou de leve o joelho de Jorge. O pinho e a baunilha chegaram-lhe devagar, firmes e tranquilos — uma promessa silenciosa de que aquela noite seria segura. — Quero que seja uma noite especial e única para ti… para nós. Vou ligar ao Mário.

          Jorge assentiu, os olhos marejados, mas o sorriso agora era pleno. Alice dormia, finalmente tranquila, e o mundo parecia pronto para lhes oferecer uma noite só deles — feita de silêncio cúmplice, de toques demorados, de tudo o que não cabia nas palavras.

           Sem hesitação, Jorge fez a ligação, e do outro lado da linha Mário atendeu com naturalidade, encostando-se à bancada da cozinha.

📞 — "Boa noite, amigo… como estão as coisas por aí?"

           A voz do outro lado era familiar, calorosa. Gui, que tirava os sapatos, olhou curioso.

📞 — [Tudo ótimo. Olha… passa o telemóvel ao Gui, Jorge quer pedir uma coisa.]

          Mário sorriu e estendeu o aparelho.

— Anjo, toma… o teu amigo quer pedir-te uma coisa.

          Gui pegou o telemóvel, já com o coração acelerado. A voz de Jorge chegou clara, mas com uma hesitação que Gui reconheceu de imediato.

📞 — "Jorge… tudo bem? Porque não me ligaste do teu telemóvel?"

📞 — [Sim, tudo ótimo. O Mário foi mais rápido a ligar. Desculpa chatear-te, mas queria pedir se podem ficar com a menina hoje?]

          Gui franziu o cenho, preocupado.

📞 — "Algum problema entre vocês?"

📞 — [Calma, Gui, sei o que pensas, mas está tudo ótimo entre nós… ele trata-me muito bem… relaxa.]

📞 — "Então porque não queres ficar com a menina?"

          Houve uma pausa. A respiração de Jorge parecia mais pesada, como se estivesse a escolher as palavras com cuidado.

📞 — [Gui… queria ficar só com ele… quero ir até ao fim, mas quero estar à vontade, percebes?… não sei como me vou portar… não quero que Alice ouça ou nos interrompa. Sei que vocês devem querer ficar sós também, mas…]

          Gui não deixou que ele terminasse.

📞 — "Nós vamos buscar a menina. Fala com ela… vamos a caminho."

📞 — [Obrigado, amigo.]

— Eles vêm buscar a menina… — disse Jorge, com a voz suave. — Vou falar com ela.

— É melhor. A ti ela vai ouvir-te de certeza — respondeu Henrique, sorrindo com carinho, reconhecendo o vínculo especial entre Jorge e a pequena.

            Jorge aproximou-se de Alice, que brincava distraída com um boneco no tapete. Ao ouvir o seu nome, a menina levantou os olhos, atentos, como se soubesse que algo importante estava prestes a ser dito.

— Meu sol… — começou Jorge, ajoelhando-se à altura dela. — Vou pedir-te uma coisa. É muito, muito importante para mim… e também para o teu papi.

— Sim — respondeu Alice, com a voz miúda, mas firme, os olhos fixos no rosto do seu mami.

— Hoje vais dormir na casa do tio Mário e do amigo da mami. Vais gostar do amigo da mami, prometo.

          Alice franziu o rosto, os olhos marejados.

— Mami, não quero ir… — choramingou, agarrando-se ao braço de Jorge.

            Jorge respirou fundo e acariciou-lhe o cabelo com delicadeza.

— Por favor, princesa. Quero que sejas uma boa menina. Queres ver a mãe feliz, não queres?

— Sim…

— Então vais dormir na casa do tio Mário. Faz isso pela mami e pelo papi.

          Alice hesitou, mordendo o lábio inferior, como se estivesse a pesar o mundo inteiro nas mãos pequeninas.

— Ok… quero que fiques feliz. Eu vou dormir com o titi.

           Jorge sorriu, emocionado, e abraçou-a com força, beijando-lhe a face rechonchuda e quente.

— Eu e o papi ficaremos muito felizes. Obrigado, meu sol.

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