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Capítulo 16 — Conversas de Sofá

          Havia ali uma paz nova — simples, doméstica — que Gui ainda não sabia bem como segurar. Mário, alheio a esse turbilhão silencioso, mexia nas panelas como se aquela rotina já lhes pertencesse há muito tempo.

           Gui observava-o em silêncio, sentado à mesa, o queixo apoiado na mão, o olhar suave… mas distante. E, mesmo antes de o encarar, Mário percebeu: o pêssego tinha ganho uma nota quase impercetível de ansiedade, como casca amarga por baixo do doce.

— Anjo… — chamou, inclinando a cabeça. — Estás muito calado.

          Gui piscou, como quem regressa de um lugar longe demais.

— Desculpa… estava só a pensar.

— Então vamos falar sobre isso.

          Sentaram-se à mesa. A conversa fluía, mas Mário não deixou de notar uma sombra no olhar do seu pequeno — e a forma como o pêssego teimava em não assentar. Ele respirou fundo, deixando o próprio cheiro ficar mais morno, mais sereno, como quem baixa a voz sem falar.

— Anjo, que se passa?

— Estou bem…

— Anjo, fala comigo. Sei que algo te preocupa. É connosco? Não estás feliz? Magoei-te de alguma forma? — A voz do alfa carregava uma preocupação genuína.

           Gui abanou a cabeça, apressado, e o pêssego voltou a ficar doce, sincero:

— Não é nada connosco! Estou muito, muito feliz contigo. Só… não consigo deixar de pensar no Jorge. Desculpa, sei que não devia, mas preocupo-me.

            Mário suspirou, e uma ponta de ciúme escapou-lhe na voz:

— Ainda não acreditas que o meu amigo pode proteger e fazer feliz o teu amigo, não é?… Amá-lo muito…

           Gui ergueu os olhos, percebendo a mistura de sentimentos. O pêssego, que antes estava doce e quieto, ganhou uma nota nervosa — não forte, apenas um tremor leve, como se a pele ficasse mais sensível ao mundo.

— Amo sim… não nego. Mas não da maneira que pensas. Amo como a um irmão, alguém que quero ver feliz, porque merece ser feliz. — Fez uma pausa. — Não estás a sugerir que eu tenho algo mais com ele, pois não?

— Não!… Não!… Desculpa, Anjo. Sei exatamente o que sentes por ele. Mas confesso… fiquei com ciúmes. Não devia, mas fiquei. — Mário baixou a voz, envergonhado, e o mogno e a canela que lhe eram naturais assentaram, quentes, como quem pede desculpa sem tocar. — Não te vou partilhar com ninguém. És meu, só meu.

            Gui respirou fundo. O pêssego suavizou, voltando a ser macio.

— Eu não quero mais ninguém — respondeu Gui, firme. — E espero que tu também não queiras. Não te vou dividir com ninguém… nem mesmo no cio.

           Mário sorriu, deixando escapar um riso breve.

— Sim, senhor, meu ómega. Gosto desse sentimento de posse. Gosto quando me enfrentas… até quando me dás ordens. — Riu. — Quero-te assim… e sem vergonha nenhuma na minha cama.

Se não me quiseres assim, podes mandar-me embora! —brincou Gui, tentando afastar o peso com humor.

— Nunca… és meu! — respondeu Mário, possessivo, mas sem dureza; o cheiro dele não "invadiu", apenas ficou mais presente, como um abraço invisível que não aperta.

— Ainda bem. Porque eu não quero ir embora… — Gui suspirou, e o olhar voltou a ensombrar-se. — Será que está tudo bem com eles?

— Queres dizer com o Jorge, não é? — perguntou Mário, agora mais calmo. — É isso que te preocupa.

— Sim… queria muito ligar!

— Deixa-os conversar mais um pouco. Mais logo ligamos. Eles precisam de tempo para se entenderem. E acredita: o Henrique nunca fará mal ao teu amigo. Ele ama-o.

         Gui assentiu devagar, como quem aceita uma verdade ao ritmo da própria ansiedade.

— Ok… tens razão. Desculpa. Mudando de assunto… posso perguntar pela tua família? Sei tão pouco de ti.

— Verdade… ainda não falámos disso. É importante que nos conheçamos. Só tenho a minha mãe, o meu pai já faleceu. Somos três irmãos: a minha irmã, uma ómega mais velha, já casada, com dois filhos. E o meu irmão mais novo, também ómega, deve ter a tua idade, está a estudar fora.

— Vais contar à tua mãe sobre nós?

— Claro que sim! Tu és meu ómega, como não iria dizer-lhe? Quero que conheças a minha família. Vais gostar deles… bom, talvez não tanto do novo companheiro da minha mãe. Nenhum de nós gosta dele, só ela o atura.

— Lamento isso… achas que eles vão gostar de mim? — perguntou Gui, ansioso.

          Mário inclinou-se um pouco, sem pressa.

Tenho a certeza que sim. E a tua mãe, vai gostar de mim?

— Claro que vai. Ela e o meu padrasto vão perceber que tu me fazes feliz. E isso será suficiente.

           Mário sorriu, mas a curiosidade escapou-lhe:

— Anjo, aquele menino com quem estavas no centro comercial… era teu irmão? Cheguei a pensar que fosse teu filho.

         Gui riu-se, divertido, e o pêssego aliviou como quem finalmente solta o ar.

— Se fosse meu filho, teria feito diferença?

— De maneira nenhuma. Seria criado por mim como se fosse meu. Amá-lo-ia como se fosse meu também.

— Não é meu filho, é meu irmão! Tem cinco aninhos. Um alfa muito esperto. Mas diz-me… como se conheceram tu e o Henrique?

         A conversa seguiu num compasso sereno, entrecortada pelo tilintar dos talheres e pelo aroma suave do vinho, que deixava o ambiente mais morno, mais íntimo. Por baixo disso, as feromonas existiam — mas mansas, sem pressa: o mogno e a canela como promessa de cuidado; o pêssego como confiança a aprender a ficar.

— As nossas famílias sempre foram próximas. Crescemos juntos, tornámo-nos confidentes. Mais tarde, fomos para a mesma faculdade, tirámos o mesmo curso e abrimos o escritório lado a lado.

— Hum… e porque estás solteiro? Bonito como és, devias ter muitas meninas aos teus pés — provocou Gui.

— Meninas e meninos… — riu — mas prefiro meninos. Meninas não me despertam. E obrigado pelo "bonito". A verdade é que ainda não tinha encontrado a pessoa certa… até agora.

          Gui corou. O pêssego aqueceu um pouco, doce e tímido.

Só tiveste relações com meninos?

— Também tive com meninas, mas não é a mesma coisa. Os meninos mexem mais comigo. Sobretudo este pequeno ómega em forma de anjo que tenho à minha frente.

— Assim deixas-me sem palavras… — murmurou Gui, vermelho. — Mas já tiveste alguém sério?

— Acho que não. Nada que durasse. Nada que me desse vontade de apresentar à minha família… ou de marcar como meu.

— Tu… queres marcar-me?

         A pergunta escapou-lhe antes que pudesse travá-la. Sentiu o coração acelerar, o rosto incendiar-se e, por um instante, desejou poder recolher a frase. Gui sentiu o próprio lobo dar um passo interno, como se tivesse ouvido um chamamento antigo. O pêssego subiu, delicado, e depois assentou — como se dissesse: eu confio.

          Mário não se mexeu. Mas o lobo dele estava inteiro ali, atento, presente, a medir a respiração do ómega e a respeitar-lhe o medo. O mogno e a canela envolveram o ar com uma calma firme, e Gui teve a impressão estranha de que, se fechasse os olhos, conseguiria ver dois lobos lado a lado, ombro com ombro, a decidir ficar.

— Pões dúvidas disso? Estiveste muito perto de o ser ainda há pouco. Ou será que não queres a minha marca?

— E porque não me marcaste? Claro que quero a tua marca… quero muito. Mas sabes que já sou teu, mesmo sem ela. Só que…

— Não te marquei porque não tínhamos falado disso. Não seria honesto fazê-lo sem o teu consentimento — explicou Mário, atento ao franzir de sobrancelha que surgira no rosto do seu pequeno. — Mas diz-me… o que se passa agora nessa tua cabecinha?

           Gui respirou fundo, como quem tenta organizar pensamentos que o coração insiste em baralhar.

— Conhecemo-nos há tão pouco tempo… e se eu não for o certo? A marca é definitiva.

           Mário endireitou-se, firme.

— Para com isso. Tenho a certeza de que és o certo. Vou marcar-te. Estiveste perto de o ser nas vezes em que fizemos amor. As minhas presas saltaram sempre. Da próxima vez… não sei se vou conseguir evitar.

— Quando será o teu próximo cio?

— Dentro de um mês.

— O meu vem primeiro. Duas semanas…

            A voz de Mário perdeu alguma segurança. O mogno e a canela "cortaram" por um segundo, não por ameaça, mas por medo.

— Anjo, estás pronto para mim? Os nossos cios, como lúpus, são violentos. Nem sempre conseguimos controlar-nos. Compreendo se não quiseres estar comigo. Tenho medo de te magoar.

           O silêncio que se seguiu não era de dúvida — era de peso, e Gui sentiu isso na pele, e o pêssego recuou instintivamente… para depois voltar, devagar, como quem escolhe ficar.

           Gui aproximou-se, pousando a mão no rosto dele com uma delicadeza que contrastava com a intensidade do tema.

— Vou estar aqui para ti. E sei que não me vais magoar. Não quero que passes por isso com mais ninguém. Odiar-me-ia se não pudesse satisfazer o meu alfa nessas alturas.

          Mário desviou o olhar, como quem confessa algo que preferia esconder.

— Não o faria com outras pessoas… mas sozinho, talvez.

        A sombra na voz dele fez Gui estremecer, não era ciúme — era medo de o ver sofrer.

— Nem penses nisso — disse Gui, firme, com uma convicção que surpreendeu até a si próprio. — Agora tens-me a mim.

        O alfa respirou fundo, como quem tenta afastar um pensamento que não quer admitir.

— Ok… depois falamos melhor sobre isso.

— Só que… — Gui hesitou, mordendo o lábio. — Tenho medo de não ser suficiente para ti. De não conseguir acompanhar-te no cio. De te desiludir.

          Mário ergueu-lhe o queixo com dois dedos, obrigando-o a encará-lo.

— Anjo… tu és tudo o que eu preciso. Não tens de provar nada. Não tens de ser perfeito. Só tens de ser meu.

           Gui sentiu o coração apertar.

— Mas e se eu não conseguir acompanhar? E se for demasiado para mim?

— Então paramos — respondeu Mário, simples, firme. — Eu nunca te forçaria a nada. E se alguma vez perder o controlo, tu dizes uma palavra e eu paro. Confio em ti. Confia em mim também.

          Gui respirou fundo, como quem absorve uma verdade nova.

— Eu confio. Mais do que devia, talvez.

— Não — corrigiu Mário, aproximando-se. — Confias exatamente o que deves. E eu vou estar aqui para te provar isso todos os dias.

        O ómega desviou o olhar, corado.

— Eu quero a tua marca… mas quero que seja no momento certo. Não por impulso. Não porque o cio te obriga.  

          Mário sorriu, um sorriso lento, quente, cheio de promessa.

— Então será quando tu disseres. Quando estiveres pronto. Quando quiseres que o mundo saiba que és meu.

           Gui sentiu o estômago dar um nó doce.

— Eu já sou teu…

— És — concordou Mário, puxando-o para o colo. — Mas quero que sejas meu sem medo nenhum. Quero que saibas que eu te escolho. Hoje. Amanhã. E no cio também.

             Gui encostou a testa à dele.

— Então… vamos falar sobre isso com calma. Sobre como vai ser. Sobre o que eu preciso fazer. Sobre o que tu precisas de mim.

— Vamos — disse Mário, beijando-lhe a ponta do nariz. — Mas não agora. Agora… quero só isto.

           Apertou-o contra o peito, como se o mundo inteiro coubesse naquele abraço.

Gui suspirou, rendido.

— Mário…

— Sim, Anjo?

— Obrigado por me quereres.

           O alfa sorriu contra o cabelo dele.

— Eu não te quero, Gui. Eu preciso de ti.

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