Capítulo 14 — A História de Jorge
O dia na casa de Henrique começou com o toque insistente da campainha, quebrando o silêncio da manhã e arrancando os amantes ao sono.
Resmungando, Henrique vestiu o roupão, mas antes inclinou-se para o ómega, que despertara com um sorriso suave. Beijou-lhe a face com ternura.
— Lobinho, veste qualquer coisa. Quero apresentar-te uma pessoa muito importante na minha vida.
— Ok… — respondeu Jorge, curioso e tranquilo. Vestiu uma camisola larga de Henrique, que lhe caía como uma túnica, e desceu com ele, de mãos dadas.
A campainha continuava a soar, impaciente.
Aproximaram-se da porta ainda sorridentes… mas assim que Henrique a abriu, o sorriso de ambos desapareceu, do outro lado, a pequena sobrinha de Henrique estava nos braços da avó, mas o olhar da menina prendeu-se imediatamente em Jorge.
O ómega parou, o rosto branco como cal, os olhos arregalados, fixos na criança, como se o tempo tivesse congelado.
— Mami… Mami… — gritava a menina, esticando os bracinhos na direção de Jorge, tentando escapar do colo da avó.
Jorge não se mexia.
Por um instante — apenas um — os olhos dos dois ficaram presos um no outro. A menina parou de gritar. Jorge parou de respirar. Era como se o mundo inteiro tivesse decidido calar-se para deixar aquele reconhecimento acontecer — silencioso, absoluto, inevitável.
Depois, o corpo traiu-o.
O rosto ficou cada vez mais branco, a respiração presa, as pernas a falhar.
E então, num sussurro quase inaudível:
— Alice…
Foi tudo o que conseguiu dizer antes de o mundo escurecer. De súbito, sentiu o coração disparar e um frio intenso percorreu-lhe o corpo. As pernas fraquejaram, o corpo já sem força, mas não chegou a cair.
Henrique, rápido e instintivo, envolveu-o nos braços, erguendo-o com firmeza e cuidado — como se o chão tivesse desaparecido sob os seus pés.
— Mãe, por favor… leva a menina de volta. Eu não sei o que se passa, mas preciso de tempo. Prometo que explico tudo assim que souber. Por favor… — Henrique falava com urgência, o coração apertado.
Uma coisa era certa:
o seu ómega conhecia a pequena Alice.
E ela conhecia-o também.
— Tudo bem, meu filho. Cuida dele. Eu levo a Alice e tento acalmá-la — disse a avó, serena, apesar da menina inquieta que só chamava pela mãe.
— Princesa, olha para mim… não chores — pediu Henrique, tentando acalmá-la.
Mas os olhos da menina estavam presos no ómega desmaiado.
— Mas a mamã… a mamã!
— Querida, eu vou tratar da mamã. E logo vamos os dois buscar-te. Prometo. Mas agora preciso cuidar dele, sim?
— Prometes? Ele vai ficar bem?
— Vai ficar bem. Agora vai com a avó, meu amor.
Alice hesitou, mas acabou por se deixar levar, ainda chorosa.
Henrique fechou a porta com o coração em pedaços e levou Jorge para a cama, deitando-o com cuidado.
Por um instante, hesitou, numa indecisão paralisante. Depois, finalmente, pegou no telefone e ligou para Mário.
🍃 🍃 🍃
Não muito longe dali, Mário e Gui ainda dormiam, enroscados.
— Amor… — murmurou Gui. — O telefone…
— Deixa tocar…
— Pode ser importante… por favor…
Havia uma angústia inexplicável no peito de Gui, desde o primeiro toque.
— Vê quem é e atende tu…
Gui obedeceu.
Ao ver o nome de Henrique, atendeu com um sorriso — mas o coração já apertava.
📞 — "Olá Henrique, é o Gui!"
📞 — [Gui… desculpa, mas preciso de vocês aqui. Por favor.]
A aflição na voz de Henrique fez o estômago de Gui afundar.
📞 — "O que aconteceu?"
Mário despertou de imediato, atento.
📞 — [O Jorge desmaiou… e não o consigo acordar!]
📞 — "Desmaiou?! Mas… o que lhe fizeste, Henrique?"
O medo tomou conta da voz de Gui.
📞 — [Nada! Juro! Tu não sabes, mas ao fim de semana tenho cá a minha sobrinha. Esqueci-me de dizer ao Jorge. Hoje, ao abrir a porta, ela olhou para ele e chamou-lhe 'mamã'. Ele ficou branco… e antes de desmaiar, disse o nome dela…]
📞 — "Alice…" — murmurou Gui.
E então, sem aviso, largou o telemóvel e começou a chorar, o corpo a tremer.
Mário, alarmado, pegou no telefone.
📞 — [Sou eu, Henrique. O Gui não consegue falar. Em cinco minutos estamos aí.]
📞 — "Obrigado. Usa a tua chave."
Mário desligou e voltou-se para o seu ómega, que tremia nos seus braços.
— Anjo… fala comigo. Assim não sei como te ajudar.
Gui respirou fundo, tentando controlar o choro.
— A princesa… é uma menina de quase quatro anos? Loura… olhos verdes?
Mário franziu a testa.
— Sim… é a sobrinha adotiva de Henrique. Mas como sabes isso?
Gui fechou os olhos, como se a dor o atravessasse.
— Oh, meu Deus… Jorge… tu não merecias isto. A tua Alice… a nossa menina…
— O que estás a dizer?
Gui não respondeu de imediato. Ficou imóvel por um instante, o rosto enterrado no peito de Mário, os dedos agarrados à sua camisola como se precisasse de algo sólido para não cair. O choro era silencioso agora — mais fundo, mais antigo, como se viesse de um lugar que ele raramente deixava abrir.
Depois, respirou fundo, endireitou-se, e enxugou o rosto com as costas da mão.
— Agora não posso falar. Vamos vestir-nos. Ele precisa de mim.
Mário não insistiu.
Sabia que a verdade viria — mas não naquele momento.
🍃 🍃 🍃
Pouco tempo depois, entraram na casa de Henrique. O ambiente estava marcado por um silêncio pesado, apenas interrompido pelo som sutil dos passos cautelosos que ecoavam pelo corredor.
O quarto encontrava-se mergulhado em penumbra, a luz fraca filtrando-se pelas cortinas.
Henrique, ansioso e frustrado, tentava aproximar-se, tocando-o com gestos hesitantes. A cada tentativa, era recebido por uma rejeição silenciosa, que o deixava ainda mais inquieto.
Gui aproximou-se.
— Podem sair os dois um bocadinho, por favor.
— Eu não vou deixar o Jorge! — respondeu Henrique, a voz demasiado alta.
Gui recuou, assustado, mas firme.
— SAI! Por favor! Ele fica bem!
O instinto alfa de Henrique quis reagir… mas a humanidade venceu e saiu, seguido por Mário.
Dentro do quarto, o ar parecia suspenso.
— Jorge, meu querido… já sei o que aconteceu — disse Gui, aproximando-se.
Jorge desfez-se num choro alto, como se finalmente tivesse permissão para cair.
— Ela reconheceu-me… a minha menina… o meu sol… é ela, Gui… o que vou fazer agora?
Atirou-se aos braços do amigo, que o apertou com força.
— Primeiro, vamos sair deste quarto. Depois vamos sentar e conversar. Tens de contar tudo. Henrique merece saber. E o Mário também. Vamos esclarecer tudo… e depois vemos o que fazer, ok?
Jorge acenou, ainda sem palavras, Gui ajudou-o a levantar-se e guiou-o até ao wc.
— Vai lavar o rosto. Respira. Eu estou contigo. E vai ficar tudo bem.
Jorge obedeceu, não porque estivesse pronto — mas porque confiava. E sentia-se grato, acima de tudo, pelo amigo que tinha.
🍃 🍃 🍃
Na sala, os dois mais velhos conversavam em voz baixa.
Henrique estava sério, o olhar perdido, a ansiedade, a angústia, a impotência estampada no rosto, principalmente o peso de não saber — e de não poder fazer nada.
— Calma, Henrique… logo vamos entender o que está a acontecer — disse Mário, tentando acalmá-lo, embora também ele estivesse inquieto.
— Sabes que a menina é adotada. Mas… qual a probabilidade de o Jorge ser o pai verdadeiro?
— Remotas…, mas não impossíveis.
— Ele disse o nome dela antes de desmaiar. E eu nunca falei sobre ela. Não tinha como saber… — Henrique passou a mão pelo rosto, como se tentasse afastar o pensamento. — Agora que penso nisso… ele tem uma pequena cicatriz no abdómen inferior. Meu Deus…
As lágrimas começaram a cair sem que ele se apercebesse, silenciosas, pesadas, como se o corpo procurasse libertar-se do que a mente ainda não conseguia nomear.
Mário ficou imóvel por um instante, a observá-lo.
Em anos de amizade, tinha visto Henrique atravessar coisas que teriam partido qualquer outro homem — os anos de solidão, a morte do irmão e da cunhada, a forma como recolheu a Alice e continuou de pé como se não houvesse alternativa. Nunca o tinha visto chorar assim. Não desta forma — sem controlo, sem defesa, como se o peso de tudo tivesse finalmente encontrado uma fissura por onde sair.
Aproximou-se devagar e pousou-lhe uma mão no ombro, sem dizer nada.
Às vezes não há palavras. Só presença.
Foi nesse estado que os dois mais novos entraram na sala.
Mário, sentado numa ponta do sofá, puxou Gui para o colo, abraçando-o com ternura, os dedos acariciaram-lhe o cabelo, os lábios pousavam beijos suaves na face. Sentia o choro do seu ómega, o corpo a tremer, e apenas o envolvia.
Jorge aproximou-se, os olhos ainda vermelhos, mas com um brilho de necessidade e confiança.
— Amor… desculpa ter-te assustado — disse, a voz embargada. — Preciso muito do teu colinho. Dás-me?
Henrique abriu os braços sem hesitar e Jorge deixou-se cair ali, como quem encontra abrigo depois da tempestade. Henrique pegou nele e sentou-o no colo, abraçando-o com força, sem se importar que ele o visse a chorar.
— Odeio esta sensação… de não te poder ajudar. Odeio mesmo — murmurou, a voz trémula.
— Mas estás a ajudar… e muito. Confias em mim, mesmo sem conhecer o meu passado. E isso… isso é tudo para mim — respondeu Jorge, mais calmo, aconchegado ao peito do seu alfa, respirando o seu cheiro como quem encontra abrigo.
— A menina? — perguntou Jorge, com cuidado.
— Foi com a minha mãe. Não podia ficar aqui… contigo desacordado e sem saber o que se passava — explicou Henrique, tentando manter a calma. — Vais contar-nos o que está a acontecer?
Jorge ergueu os olhos e devolveu a pergunta:
— Ela é tua filha?
— Minha sobrinha adotiva. Era filha do meu irmão com o seu ómega. Como não podiam ter filhos, adotaram. Mas… como sabias o nome dela?
— Ela chama-se Alice?
— Sim… chama.
— Deve ter perto de quatro anos. Aliás, deve fazê-los daqui a um mês, no dia cinco. E tem um sinal em forma de coração na nádega direita… igual ao meu.
Henrique ficou completamente imóvel.
A frase pousou no ar como uma pedra atirada a um lago — e as ondas foram chegando, uma a uma, devagar demais para serem travadas. O aniversário. O dia cinco. O sinal em forma de coração. Ele conhecia aquele sinal — tinha-o visto vezes sem conta quando banhava a Alice, quando a vestia, quando ela adormecia.
Nunca imaginara que pudesse existir noutro corpo.
Nunca imaginara que esse corpo estivesse ali, no seu colo, a tremer.
Ergueu os olhos para Jorge — e pela primeira vez desde que o conhecera, não soube o que dizer.
— Sim… isso mesmo — murmurou, a voz a sair por instinto, antes que a mente tivesse encontrado palavras. — Queres dizer-me o que está a acontecer?
Sentia-o nos ossos — o que viria a seguir mudaria tudo.
Jorge não se incomodou com o tom. As lágrimas voltaram, quentes, e o supressor no pescoço pareceu subitamente inútil — por baixo dele, o aroma de morangos tremia, instável, como se o corpo já não soubesse fingir.
— A menina… — disse, a voz a falhar. — …é minha filha.
— Tua filha?…
Henrique repetiu, atónito, como se o ar lhe tivesse sido arrancado. O pinho e a baunilha que sempre o acompanhavam vacilaram num segundo, ganhando uma nota crua, metálica, de choque.
Mário ficou imóvel. No colo, Gui tremia, pequeno, e o cheiro de pêssego que normalmente era doce vinha agora cortado por uma ponta de ansiedade, quase como casca amarga. Mário apertou-o com mais força, deixando o mogno e a canela espalharem-se devagar, como um cobertor quente.
— Sim. Minha filha — confirmou Jorge.
E então a voz sumida, abafada no peito de Mário, acrescentou:
— E minha irmã.
— O quê?… — Perguntaram Henrique e Mário quase em simultâneo.
Jorge respirou fundo. O ar à volta parecia cheirar a café frio e papel — como se a realidade insistisse em lembrar que aquilo era uma sala, e não um lugar seguro para memórias. Ainda assim, o pinho e a baunilha de Henrique mantinham-se próximos, firmes, a dar-lhe chão.
— Vocês merecem saber a minha história… que é, também, um pouco a história do Gui.
Ao ouvir o nome, Gui estremeceu. Mário afagou-lhe o cabelo, lento, e Gui inspirou o aroma do alfa como quem se agarra a uma âncora.
— Vou tentar contar a versão mais curta… sou órfão. Nunca soube quem eram os meus pais, e ao que parece, não havia parentes. Fui enviado para um orfanato, onde cresci… — Jorge engoliu em seco. — Era uma criança feliz, acarinhada por muitos dos educadores. Aos seis anos fui para a escola pública primária. Foi lá que conheci o Gui. Tornámo-nos amigos quase de imediato… e com o tempo, confidentes.
Henrique apertou-o um pouco mais, e Jorge sentiu no peito a promessa silenciosa daquele cheiro: estou aqui.
— A minha vida começou a mudar quando fiz doze anos. O corpo começou a transformar-se… e isso chamou a atenção de muitos alfas. No orfanato… durante muito tempo… um dos educadores ultrapassou limites. De início eram toques leves…, mas o cheiro dele… era horrível. Com o tempo… os toques tornaram-se mais invasivos. Eu sentia-me enojado. Sujo.
Henrique sentiu o lobo rosnar por dentro, baixo, controlado — mas presente. Apertou Jorge contra si sem perceber que o fazia.
— Na escola… também não era deixado em paz — continuou Jorge, a voz trémula, mas firme. — Um dos professores criou o hábito de me tocar. Não parava. Uma vez… levou-me à casa de banho e obrigou-me a… — a voz falhou, mas ele continuou, sem entrar em detalhes — eu tinha oito anos. Não fazia ideia do que estava a acontecer. Gui viu tudo. E foi aí que se tornou meu protetor. Passou a andar comigo, não me deixava sozinho nem por um minuto.
Henrique apertou-o com mais força, o coração a doer com cada palavra.
— Mas o Gui não podia proteger-me no orfanato. Lá… as invasões continuaram. Tornaram-se mais frequentes. Com dezassete anos… desabei. Contei tudo ao Gui.
Gui, ainda no colo de Mário, acrescentou:
— Falei com os meus pais. Eles quiseram ajudar. O Jorge foi morar connosco. Pensámos que finalmente teria paz…, mas os problemas não ficaram por aí.
Jorge assentiu, os olhos perdidos na memória.
— De início fui feliz. Adorava a família do Gui. A mãe… uma senhora fantástica, dedicada aos filhos, especialmente ao pequeno alfa que tinha acabado de nascer. Já o pai… era uma figura séria, autoritária. Tinha um sentido de castas muito apurado. Para ele, ómegas eram lixo. Serviam apenas para ser usados.
Henrique cerrou os punhos, mas manteve-se em silêncio.
— Com o tempo… comecei a perceber o olhar do pai do Gui sobre mim. Um olhar estranho, que na altura eu não entendia. Não podia contar nada ao Gui. Consegui, durante algum tempo, evitar o contacto. Mas o ciclo da vida é estranho…
Jorge respirou fundo.
— Meses depois de estar lá… tive o meu primeiro cio. Nem sabia o que estava a acontecer. Ainda não havia dor, nem aquela vontade de ter um alfa, como dizem que é suposto. Só o calor… intenso… e o cheiro a aumentar, a escapar-me apesar dos supressores, como se o corpo acendesse luzes que eu não sabia apagar.
Gui apertou-lhe a mão, com força suficiente para dizer eu estou aqui sem dizer nada.
— Por azar… nesse dia eu estava sozinho em casa. Eu pensava que estava sozinho… não me apercebi que o meu cheiro estava mais ativo. E então… apareceu o Sr. Carlos. Estava… atraído pelo meu cheiro.
Henrique apertou-o com mais força, mas não o interrompeu.
— Tentei fugir. Pedi clemência. Mas ele não me ouvia. Rasgou a minha roupa… e… — Jorge não conseguiu continuar. A dor era demasiado grande.
O pinho e a baunilha de Henrique ficaram tensos no ar, mais densos, quase cortantes — o lobo a lutar contra o homem que tentava não se mover, não assustar, não partir.
— Ele tinha acabado de formar o nó… quando Gui entrou na sala e gritou. A mãe veio atrás, pelos gritos… e também viu. Ele… ele…
A voz morreu-lhe na garganta.
Gui, com os olhos cheios de lágrimas, completou:
— Saiu de dentro do Jorge com o nó ainda completamente formado… — a voz falhava. — O Jorge desmaiou com a dor. Sangrava muito. O meu pai fugiu. Durante algum tempo… não tivemos notícias dele. O Jorge foi para o hospital. Teve de ser suturado. As lesões eram graves.
"Então aquele menino no centro comercial… é o teu irmão." — pensou Mário, sentindo o peso de tudo encaixar de uma vez.
Jorge continuou, a voz mais baixa, mas carregada de emoção:
— O médico não achou necessário medicação anticoncetiva. Era o meu primeiro cio… ainda estava no início. Pensei que tudo tinha acabado. Mas algum tempo depois… descobri que estava grávido. No início… não queria. Era fruto de violência. Mas… conforme a menina crescia dentro de mim… fui amando aquele pequeno ser. E nasceu a Alice. O meu Sol. A minha vida.
O silêncio caiu sobre a sala, pesado, cheio de dor… mas também de amor.
Jorge chorava intensamente — e todos sabiam que aquele choro não era apenas tristeza.
Era libertação.
Henrique não disse nada. Não conseguia. Sentiu os braços apertar Jorge quase sem querer — e o lobo, que rosnara de raiva durante toda a confissão, aquietou-se de repente, como se finalmente percebesse o que estava a segurar: não apenas o seu ómega. Mas o pai da sua Alice.
— A menina crescia feliz com a sua mami… como ela me chamava — continuou Jorge, a voz embargada. — Mas… com quase dois aninhos… a Alice foi raptada do berço onde dormia. Eu estava na cozinha… e ela na sala, mesmo ao lado. Lembro-me do cheiro da casa nesse instante: normal, quotidiano… e depois, de repente, vazio. Um vazio que cheira a nada — e por isso assusta mais.
Gui endireitou-se, e o pêssego dele voltou a tremular, inquieto.
— Procurámos. Fomos à polícia. — Gui falou, firme, mas a dor tingia cada palavra. — Mas nada. Nem sequer aceitaram a queixa. Afinal… éramos ómegas. "Não têm direitos", disseram eles.
Jorge baixou os olhos. O morango murchou no ar, como se a esperança tivesse sido esmagada outra vez.
— Fiquei deprimido por muito tempo. Mas o Gui… fez-me ver a realidade. Fez-me levantar a cabeça. Seguir em frente.
— Henrique… — chamou Jorge, com a carinha triste. O supressor no pescoço puxava, lembrando-lhe que ainda tentava controlar o corpo, mesmo ali. — Queres ter filhos?
— Quero… mas não é uma prioridade. Porque perguntas isso?
Jorge começou a chorar de novo; o cheiro dele ficou mais húmido, mais carregado — não de desejo, mas de medo antigo, do tipo que volta quando se fala de futuro.
— Eu não sei se posso ter filhos… tive complicações no parto… Depois… tive uma infeção. E a possibilidade de voltar a engravidar ficou afetada.
Respirou fundo, como quem tenta atravessar uma porta estreita:
— Nunca me preocupei com isso… tinha a minha menina. Mas… fiquei sem ela. E depois… conheci-te. Mudaste a minha vida. E agora… quero ter filhos contigo. Mas… e se não conseguir? Compreendo se procurares outro ómega…
Henrique não respondeu de imediato. Puxou-o para um abraço apertado, e o pinho e a baunilha cresceram, preenchendo cada canto da sala como uma muralha.
— Mas tu estás doido, Jorge! — disse Henrique, irritado, chamando-o pelo nome. — Eu quero-te a ti, não à tua capacidade reprodutora. Se não conseguirmos ter filhos, há outras maneiras. A Alice é prova disso.
— Desculpa… às vezes sinto que não sou um ómega completo… que me falta alguma coisa.
— Falta-te eu, meu lobinho. Agora estás completo — disse Henrique, acariciando-lhe o rosto com ternura. — Vamos pensar uma coisa de cada vez. Posso fazer-te uma pergunta íntima… mesmo com o Mário e o Gui aqui?
— Podes. O Gui sabe tudo sobre mim. E o Mário… agora está com ele. Deve saber também. Até porque algumas coisas o afetaram. Não é, Mário?
— Já sim. Já percebi — respondeu Mário, passando a mão na cabeça do seu ómega e deixando-lhe um beijo suave na face.
— Qual é a pergunta? — perguntou Jorge.
— Não voltaste a ter cios?
Jorge deu um sorriso pequeno, percebendo aonde o alfa queria chegar.
— Queres saber se voltei a estar com alguém? A resposta é não. Uso supressores.
— Nem objetos? — continuou Henrique, preocupado.
— Nem isso. Mas sinto a tua preocupação. O que te preocupa?
Henrique hesitou por momentos antes de deixar a dúvida sair:
— Não conseguiste ter a criança porque não dilatavas… mas será que vais conseguir que eu te penetre?
Jorge olhou-o com atenção.
Mário e Gui ficaram em suspenso.
— Nunca pensei nisso. Só posso responder depois de tentar. Se eu não conseguir… vais deixar-me?
A resposta veio como um trovão:
— NUNCA! És meu! Tu és importante. Não isso!
A última frase saiu mais forte do que ele pretendia — e o ar vibrou. O cheiro de Henrique, por um segundo, veio mais denso, mais dominante, como se o lobo tivesse dado um passo à frente.
Jorge encolheu-se. As mãos foram aos ouvidos; o choque provocado pelo tom agressivo paralisou-o, um medo profundo a invadir-lhe o peito, até que as lágrimas começaram a cair, incontroláveis. O morango dele estalou no ar, desorganizado, misturado com um fio de pânico.
Nunca tinha ouvido Henrique usar a voz de alfa… não com ele.
Gui também se sobressaltou com o rugido, o corpo reagindo antes da mente, e as mãos foram instintivamente aos ouvidos, tentando abafar o impacto daquela vibração que atravessava o ar como um trovão; o pêssego ficou áspero, nervoso. Mário puxou-o para si imediatamente, e o mogno e a canela espalharam-se com urgência, tentando acalmar o tremor.
O coração acelerou, e por um segundo o medo antigo — aquele medo que ele pensava já ter superado — voltou a latejar no peito.
Mário moveu-se imediatamente, puxando Gui para si, protegendo-o com o corpo. O lobo dele ergueu-se por dentro, rosnando baixo, não em desafio, mas em defesa — um instinto primário de proteger o seu ómega de qualquer ameaça, mesmo que essa ameaça fosse apenas um som demasiado forte.
Henrique só percebeu o que fizera ao ver a reação dos dois ómegas. O próprio cheiro "recolheu" um pouco, como se ele travasse a si mesmo à força.
— Lobinho… por favor… desculpa. Não consegui controlar. Não volto a gritar. Acalma-te…
— Eu sei que não fizeste de propósito. Confio em ti. Mas sou ómega… e assustei-me.
— Merda… não fiques assustado comigo. Nunca te farei mal. E o meu lobo… muito menos.
Henrique estava verdadeiramente irritado consigo mesmo — com o seu lobo, por terem assustado Jorge… e também o Gui.
— Estou bem. Se não confiasse… já não me tinhas ao teu colo — disse Jorge, tentando aliviar o ambiente.
Os outros dois observavam em silêncio, até que Mário falou:
— Meus queridos… vamos deixá-los a sós. Precisam de conversar. E eu preciso de acalmar o meu ómega, que não para de tremer.
— Jorge, ficas bem? — perguntou Gui, com carinho.
— Fico sim. Tenho o meu alfa para me acalmar… mesmo gritando — brincou Jorge.
— Desculpa… não volto a gritar — disse Henrique, ainda irritado consigo mesmo.
— Tudo bem, amor. Podem ir. Mário… trata do meu amigo, por favor.
— Será bem tratado, Jorge. Pensa em ti agora.
Mário levantou-se com Gui ao colo, o pequeno ainda trémulo, e fez um gesto suave para Henrique.
— Vamos deixá-los respirar um pouco — disse, com a voz baixa, mas firme.
Gui olhou para Jorge com carinho.
— Se precisares de mim… chama — murmurou, antes de sair.
A porta fechou-se devagar. O silêncio que ficou não era pesado — era íntimo. O ar, agora sem pressa, cheirava a casa, a tecido, a noite. Henrique manteve Jorge junto de si, e deixou o pinho e a baunilha ficarem mansas, constantes — uma presença que não exigia nada, apenas prometia ficar.