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Capítulo 11 — Decisão

        Depois de algum tempo a dançar, os quatro regressaram à mesa. Mal se sentaram, Gui agarrou Jorge pela mão e, sem dizer palavra, arrastou-o em direção à casa de banho.

        Jorge franziu a testa, intrigado com a urgência do gesto.

— Ei, calma… vai devagar. Que se passa contigo? — perguntou, percebendo o nervosismo estampado no rosto do amigo.

        Gui respirou fundo e, sem rodeios, largou a pergunta:

— Jorge… há algum problema se eu hoje ficar com o Mário?

         Jorge arqueou uma sobrancelha, surpreendido pela forma direta como a questão foi colocada.

— Estás a pedir a minha permissão? — disse, rindo com leveza.

— Não… — respondeu Gui, sincero. — Só queria saber o que pensas. Aprecio as tuas opiniões, sabes disso. E agora… preciso mesmo de uma.

         Gui apertava a mão de Jorge com força, sem perceber; o suor começava a brotar-lhe na palma, e o ritmo da sua respiração acelerava, evidenciando a ansiedade que se espalhava pelos seus dedos.

         Jorge, ao notar a mão presa e trémula, sorriu com delicadeza, num gesto tranquilizador, tentando acalmar o amigo.

— Obrigado… sabes que também valorizo muito o que pensas. Mas agora, por favor, devolve-me a mão… inteira, se possível.

         Gui soltou-a de imediato, com um olhar de espanto, sentindo o coração acelerar ao perceber o que fazia.

         Jorge pousou-lhe a mão no ombro, num gesto de apoio, transmitindo calma e compreensão, ajudando Gui a recuperar o equilíbrio.

— Penso que deves aproveitar. Tu queres isso, e eu sei. Vai com calma, mas vai. Acho que ele só irá até onde tu permitires. Eles respeitam-nos. Mas antes de tudo, fala com ele. Conta-lhe o que precisares contar. A verdade é tua, e és livre de partilhá-la.

— Tens razão. Vou com ele… e vou esclarecer algumas coisas. Mas… tu ficas bem sozinho?

         Jorge sorriu, com um brilho cúmplice nos olhos.

— Acho que não vou ficar sozinho — disse, num tom quase conspirador. — Tenho a impressão de que eles combinaram alguma coisa.

— Como assim… combinaram? — Gui perguntou, confuso.

— Henrique pediu-me para ficar com ele esta noite. Prometeu-me prazer… sem sexo.

— E aceitaste?

— Ainda não. Mas agora que sei que tu vais com o Mário… vou aceitar, sim. Confio nele. E se ele tentar ir mais além… não vou negar. Posso ter medo, mas também o quero.

          Gui olhou para o amigo com ternura, sabia que aquele momento era mais do que uma decisão — era um passo em direção à cura, à entrega, à liberdade de sentir.


🍃 🍃 🍃


         Enquanto isso, Henrique observava Mário, os olhos semicerrados, como se tentasse decifrar-lhe os pensamentos.

— Ei! Que se passa contigo? Vocês zangaram-se? Fizeste ou disseste alguma coisa que ele não tenha gostado? Mal o Jorge chegou aqui e já o Gui o estava a raptar. Que se passou? — perguntou, ao ver a expressão apreensiva do amigo.

— Que eu saiba, não se passou nada. Acho que está nervoso, só isso. Deve ter ido falar com o Jorge. Aqueles dois não se escondem nada — respondeu Mário, mas a voz saiu-lhe sem convicção.

         Henrique franziu o sobrolho.

— Mas nervoso porquê? Mário, que merda fizeste? Sabes que se magoares um, magoas o outro. E algo que ainda mal começou vai terminar rápido para nós os dois.

          Mário desviou o olhar, fixando um ponto qualquer no chão.

          A mandíbula cerrada, os ombros tensos.

— Acho que fiz merda mesmo. Não foi o que fiz… foi o que disse — rosnou, quase num sussurro. — Mas agora já é tarde.

         Henrique aproximou-se, mais calmo, mas firme.

— O que é que disseste?

         Mário hesitou. Engoliu em seco.

— Merda, Mário! Queres falar de uma vez o que raio fizeste? — exclamou Henrique, elevando o tom.

— Convidei-o para ficar lá em casa. Disse-lhe que queria fazer amor com ele. Vi o ar assustado dele e tentei remediar a situação, mas acho que me precipitei. Desejo-o tanto que não me consegui controlar… ele disse que precisava de falar com o Jorge primeiro. Agora só me resta esperar — e rezar para que as coisas não acabem. Se acabarem, não sei o que farei.

          Henrique respirou fundo.

— Sabes… vendo bem as coisas, estamos no mesmo barco. Como eu te percebo… pois acabei de cometer a mesma loucura! Pedi ao Jorge para ficar comigo também. Prometi-lhe prazer, sem sexo. Nem sei porque prometi isso… bolas! Não vai ser fácil resistir. Tê-lo ali e não poder avançar.

— Acho que aqueles dois vão acabar com a nossa sanidade mental — já para não falar da nossa resistência. Mas enfim, já estamos nas mãos deles — disse Mário, tentando sorrir.

— Verdade… mas são especiais. E são nossos — respondeu Henrique.

          Nesse instante, Henrique deu um murro na mesa — exatamente quando os ómegas saíam da casa de banho. Chegaram a tempo de ver a frustração estampada nos rostos dos alfas… e de sentir o medo que pairava no ar.

           Ambos sorriram, mas o riso desvaneceu-se assim que uma ómega muito bonita — de postura altiva, olhar confiante e corpo quase perfeito — se aproximou dos alfas. O brilho nos olhos dela e a forma como caminhava, segura de si, deixavam claro que sabia exatamente o impacto que provocava à sua volta.

            Dirigiu-se a Henrique com uma familiaridade acrescida por um sorriso insinuante e a voz revestida de uma calma provocante, detalhes que fizeram o sangue de Jorge ferver ainda mais.

           Não conseguiam ouvir o que diziam, mas o lobo de Jorge começou a agitar-se, inquieto.

          Estavam a mexer com o seu alfa.

— Jorge, calma. Nem tudo é o que parece — disse Gui, tentando apaziguar o amigo. — Podem ser só amigos.

— Gui, não gosto daquela ómega a tentar tocar no que é meu. Não sei o que disseram, mas sinto o desconforto do meu alfa.

         Os dois alfas estavam perdidos nos próprios pensamentos — atolados na confusão daquilo que haviam pedido aos seus ómegas — e não perceberam a aproximação da mulher.

          Só se deram conta quando uma mão pousou sobre o ombro de Henrique e uma voz suave disse:

— Henrique! Bem me parecia que eras tu. Que é feito de ti? Pensei que ias ligar-me, mas desapareceste…

         Ela sentou-se ao lado dele, tão perto que quase o roçava, balançando o corpo de forma provocante.

Henrique afastou-se ligeiramente, desconfortável.

E por que raio haveria eu de te ligar? — respondeu, seco. — Aliás, quem és tu mesmo? Nem o teu nome eu sei.

          De facto, ele não sabia o nome daquela ómega.

         Apenas se lembrava de ter passado o último cio com ela — e, se bem recordava, nem tinha sido nada de especial.

         Mário, de frente para a casa de banho, observou os dois ómegas saírem e pararem atentos quando a mulher se aproximou de Henrique. Incapaz de falar, o seu olhar permaneceu fixo neles enquanto se aproximavam silenciosamente. Estavam próximos o suficiente para ouvir, mas aguardaram, mantendo a cautela.

           Jorge, especialmente, deixava escapar um leve sorriso — tinha ouvido as palavras de Henrique e sabia que o alfa dizia a verdade.

— Como assim não te lembras de mim? Passámos o teu cio juntos! Pensei que havia algo mais entre nós… — disse a ómega, ofendida, passando o braço em volta do pescoço do alfa.

          Henrique rosnou baixo, o corpo inteiro em alerta.

          O toque dela não era o do seu ómega.

— Acho que podíamos dar uma nova chance, o que achas?— insistiu ela, mordendo o lábio.

           Jorge aproximou-se com firmeza, interrompendo sem cerimónia. O ar ao redor deles tornou-se mais denso, quase palpável, com o cheiro de ciúmes que emanava dele — uma fragrância agridoce, tão intensa que Henrique sentiu o próprio instinto responder ao aroma possessivo do seu ómega.

— O que eu acho… — disse, a voz grave e autoritária — … é que a menina devia ir embora enquanto é tempo. E deixar o alfa dos outros em paz.

           Num gesto rápido e sem disfarçar a força, afastou a mão da ómega do pescoço de Henrique. O aroma de ciúmes, ainda presente, tornou impossível ignorar a presença de Jorge e o seu vínculo com o alfa.

— Pelo que sei, não passaste de uma foda. Só isso — continuou, o olhar gelado. — E se tivesses despertado algo além da necessidade física de um cio, ele já teria ido atrás de ti.

            A ómega empalideceu. Em seguida, endireitou a postura, posicionou as mãos na cintura e voltou-se para Henrique com evidente desaprovação; este, por sua vez, reagiu com um sorriso, aparentemente satisfeito com a postura assertiva do seu ómega.

— Vais deixar que ele fale assim comigo?! — disparou ela.

— E por que não deixaria? — respondeu Henrique, o olhar cortante. — Tu não me és nada. Como o meu ómega disse, não passaste de uma foda… e, se bem me lembro, uma bem má.

            Ele enfatizou o "meu ómega" com gosto, puxando Jorge para o colo.

          O pequeno obedeceu sem hesitação, passando os braços pelo pescoço do alfa e encostando a cabeça ao peito dele — um gesto de posse, confiança e pertença.

          À frente deles, Mário e Gui observavam em silêncio, trocando olhares cúmplices.

Sabiam que não precisavam intervir.

— Chega. Vai embora — disse Jorge, firme, ainda aninhado em Henrique. — Já deu para perceber que este alfa tem dono. E sabe muito bem com quem vai passar os próximos cios. Faz algo inteligente e desaparece. Uma foda durante o cio não implica compromisso. Se ele te quisesse, já te teria procurado.

          Enquanto falava, Jorge traçava pequenos círculos no peito de Henrique com os dedos — gesto que relaxava o alfa e deixava a ómega ainda mais furiosa.

         Mesmo assim, ela tentou uma última vez:

— Henrique, nós podemos tentar…

         Mas a frase morreu nos lábios.

         Um rosnado profundo cortou o ar, seguido por uma voz grave, carregada de fúria:

— EU DISSE… DESAPARECE! ELE É MEU!

          O silêncio caiu como uma pedra.

         Todos se voltaram para Jorge. O que viam nos olhos dele não era humano — o brilho selvagem nos seus olhos era como o de um animal encurralado, pulsando com uma intensidade quase hipnótica.

         Nem Henrique esperava aquilo. Um arrepio correu-lhe pela espinha enquanto o silêncio ao redor se tornava ainda mais denso após aquela voz desconhecida. O ambiente parecia subitamente opressivo, e    Henrique sentiu o coração disparar, questionando por um momento se estaria a perder o juízo.

          Aquela voz não era dele… nem do seu lobo.

          Era o lobo de Jorge — irritado, protetor, pronto para defender o que era seu.

          A ómega recuou, chocada.

           O cio tinha sido intenso, sim, mas ela acreditara que havia algo mais — um afeto genuíno, talvez, ou mesmo um compromisso silencioso que ultrapassasse o desejo.

          Agora, cada palavra era uma lâmina:

          "Uma foda má."

          "Não me és nada."

         "Ele é meu."

          O orgulho dela desmoronava — e o pior: diante de todos.

         Jorge tremia levemente, mesmo aninhado. O coração batia acelerado, cada respiração parecia pesada, como se o ar lhe faltasse.

         O rosnado escapara antes que pudesse controlar, uma reação instintiva que revelava o turbilhão de emoções dentro dele.

         Não era só ciúme — era medo. Medo de perder o que era seu, medo de não ser suficiente para Henrique.

          O lobo rugira por ele, mas agora o silêncio deixava-o exposto — cada sensação amplificada, cada olhar à sua volta parecia pesar ainda mais.

         Henrique apertou-o com carinho, mas o olhar era sério, atento ao sofrimento de Jorge.

— Foi mais do que instinto, Jorge. Foi medo. E eu entendo. Mas não precisas rugir para me manter. Eu sou teu. Mesmo quando não pareço.

           Jorge assentiu, sentindo o calor das lágrimas ameaçando escapar enquanto o peito se aliviava. E pela primeira vez, não se sentiu apenas protegido — mas visto.

          Enquanto Jorge se aninhava no colo de Henrique, traçando círculos lentos no peito do alfa, Mário e Gui permaneciam à margem, mas atentos.

          Trocaram um olhar cúmplice — não de escárnio, mas de reconhecimento.

         Mário tinha um sorriso contido. Só os seus olhos percorriam cada gesto de Jorge com curiosidade quase clínica. Havia algo diferente em Jorge, algo que não se dobrava, que rugia.

           Gui, por outro lado, vibrava com a cena, mais impulsivo, divertia-se com o drama. Os olhos brilhavam com a tensão no ar, como se esperasse que a ómega tentasse mais uma vez — só para ver Jorge explodir de novo.

— Ele não costuma perder o controlo assim… — murmurou Gui.

— Não — respondeu Mário, sem tirar os olhos de Jorge. — Mas esse vínculo é novo. E intenso. O lobo dele está a aprender o território.

         Gui assentiu, pensativo. Havia algo de belo e perigoso naquela entrega. Jorge, tão pequeno e delicado à primeira vista, carregava um lobo que não hesitava em reivindicar o que era seu.

          E Henrique… Henrique parecia cada vez mais confortável em ser reivindicado.

— Lobinho, eu… — começou Henrique, hesitante, tentando explicar-se.

         Mas Jorge calou-o com delicadeza, pousando um dedo nos lábios do alfa.

— Não precisas dizer nada — murmurou. — Eu percebi o que ela queria. Sei que não estiveste com ninguém desde que estamos juntos, mesmo com as frustrações que tens de aguentar depois de estarmos… juntos. — Fez uma pausa breve. — Além disso, tens o teu passado, tal como eu tenho o meu. Por isso, este assunto morre aqui, está bem? Deves sentir que estou a ser sincero.

          Henrique sorriu, mais leve, brincalhão:

— Lobinho do meu coração, este assunto já está esquecido. — E, com um toque de provocação: — Agora, lembra-me lá… o que foi que se passou mesmo?

          Os lábios dele tocaram suavemente o rosto de Jorge, deixando pequenos beijos, como se apagassem qualquer sombra que restasse.

— E já que este assunto morreu… — completou, com um sorriso malicioso. — Que tal reavivarmos outro que está pendente entre nós?

Henrique estava ansioso. E, ao seu lado, Mário também.

         O alfa mantinha o olhar fixo em Gui. Aconchegou-o contra o peito, sentindo o calor do pequeno. Gui encaixava-se ali com naturalidade. Parecia o único lugar onde realmente pertencia. No olhar de Mário, havia algo mais — reverência e receio misturavam-se, como se Gui fosse feito de luz e tempestade ao mesmo tempo.

        Gui, por sua vez, permanecia quieto, os olhos fixos em Jorge, como se buscasse nele uma resposta que não sabia formular.

          Até que se ouviu:

— Nós aceitamos — disseram quase em uníssono.

         Os alfas trocaram um olhar cúmplice

        Respiraram fundo.

         E agiram.

         E sem perder tempo, segurando-lhes as mãos com firmeza, puxaram os ómegas em direção à saída do bar, tão rápido quanto as pequenas pernas dos ómegas conseguiam acompanhar.

         Enquanto caminhavam, Mário olhou para Gui com um brilho nos olhos que misturava medo e excitação.

— Tens a certeza? — sussurrou.

— Tenho — respondeu Gui, sem hesitar.

— Mas se em algum momento não tiveres, diz-me. Eu espero.

         Gui assentiu, apertando a mão dele com mais força.

        Jorge, à frente, ouviu.

        E sorriu.

        Sabia que aquele momento não era só sobre ele e Henrique — era sobre todos eles.

        Sobre vínculos que se escolhem, mesmo quando os instintos rugem.

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