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Capítulo 01— Antes de Qualquer Palavra

       O Porsche desportivo preto, último modelo, deslizou até ao estacionamento privado do edifício de nove andares onde funcionavam os escritórios da prestigiada empresa de advogados Pela Justiça. De dentro do veículo saiu um homem alto — cerca de 1,90 m — jovem, por volta dos 30 anos, de porte atlético e traços marcadamente masculinos.

       Atravessou o estacionamento com passo firme, em direção à entrada do edifício.

       Carregava uma pequena maleta na mão direita enquanto se dirigia ao elevador. Quando as portas se abriram, selecionou o oitavo andar. Assim que voltaram a abrir-se, já no oitavo piso, o ambiente pareceu ajustar-se à sua presença. Alguns ómegas desviaram o olhar instintivamente; os betas mantiveram a postura neutra, mas atenta. O aroma de alfa era impossível de ignorar.

        Henrique Silva era um alfa lúpus típico: pele escura, cabelos pretos, olhos azuis penetrantes. O seu aroma — uma mistura intensa de pinho e baunilha — era inconfundível. A imagem de profissionalismo e autoridade que projetava era quase palpável.

        A receção era ampla e moderna. Maria, a rececionista, sorriu ao vê-lo — uma beta de 25 anos, loura, de olhos verdes, sempre profissional apesar da presença constante de alfas lúpus no escritório.

        Henrique aproximou-se.

— Bom dia, Maria. Tudo em ordem? Algum recado?

— Bom dia, Dr. Henrique. Tudo em ordem. Só relembrar que hoje são as entrevistas para os novos secretários, por isso a sua agenda está vazia.

— Já chegou alguém para a entrevista?

— Só depois das dez, Dr.

— Obrigado, Maria.

        O seu olfato lupino dizia-lhe que o sócio e amigo Mário Valente, também um alfa lúpus, ainda não tinha chegado. Fisicamente, partilhavam o porte típico dos alfas lúpus, embora Mário fosse louro, ao contrário do cabelo escuro de Henrique.

        Henrique endireitou os ombros, ao entrar no próprio escritório, um gesto automático, mas que todos captavam como afirmação silenciosa de autoridade.

         Quase meia hora depois do previsto, Mário entrou sem bater, sorridente.

— Bom dia, Henrique.

        Henrique ergueu o olhar, irritado.

— Quase boa tarde. A que se deve tanta felicidade? E o atraso?

        Mário respondeu com a habitual descontração:

— Sempre maldisposto. Nem com o sexo melhoras. Acabaste de sair do teu cio, devias estar mais feliz… ou não foi assim tão bom?

        Henrique franziu o cenho.

— Cala-te. Não me provoques. Sabes bem que ultimamente não fico satisfeito nos meus cios. Por isso, chega.

        Mário ergueu as mãos em rendição.

— Tens razão, desculpa. Mas devias ter vindo comigo ontem. Encontrei um ómega fantástico no Bar do Miguel. Bonito, fofo… mexeu comigo. E não estou a falar só de sexo. Fiquei com vontade de o conhecer melhor. Ele também deve estar interessado — deu-me o contacto. Só não saiu comigo porque estava com um amigo, outro ómega, também bonito, mas mais reservado. Tímido. Assustadiço.

         Henrique sorriu de lado.

— Tu e as tuas conquistas.

— Acho que desta vez é diferente — insistiu Mário, mais sério.

         Henrique desviou o olhar, encerrando o assunto.

— Certo. E que tal concentrarmo-nos nas entrevistas.

— Que grande amigo eu tenho — resmungou Mário, teatral. — Não liga aos meus sentimentos.

— Ligo, mas já te conheço.

         Ambos acabaram por rir, deixando o assunto para trás. Reuniram os currículos e dirigiram-se à sala de reuniões. Ao passarem pela receção, Mário avisou:

— Maria, quando começarem a chegar para a entrevista, manda entrar. Estaremos na sala de reuniões.

— Certo, Dr. Mário.


🍃 🍃 🍃


       No mesmo instante, noutro ponto da cidade, na casa que Jorge e Guilherme partilhavam, a ansiedade tomava conta de quem também se preparava para o grande dia.

— Gui! Acorda, vamos chegar atrasados à entrevista! — chamou Jorge, já vestido, ajeitando a gravata junto à porta. O tom era impaciente, mas havia carinho por baixo.

        Guilherme abriu os olhos devagar, piscando contra a luz matinal que entrava pela janela.  Espreguiçou-se, tentando afastar o torpor e o nervosismo.

— Já vou… só mais dois minutos — murmurou.

— Dois minutos nada — resmungou Jorge, com um sorriso enviesado que denunciava a própria ansiedade. — Se te atrasas, eu vou sozinho e deixo-te aqui a sonhar com as tuas teorias revolucionárias.

        Guilherme soltou uma risada curta, reconfortado pela brincadeira, mas sentindo o peso do dia. Saltou da cama, pegou na toalha e, antes de desaparecer na casa de banho, fez uma careta ao amigo:

— És um chato, Jorge. Mas obrigado por me pores na linha.

        No banho, a água quente ajudava a aliviar a tensão de Jorge. Estamos mesmo prontos? E se não formos suficientes? Saiu e vestiu-se de preto, a cor que o fazia sentir-se mais seguro.

— Tens a certeza de que não esqueceste nada? — perguntou Gui com um sorriso travesso, entregando-lhe um pequeno embrulho. — Logo tu, que deixas sempre o teu cheiro por onde passas.

— Que chato! — respondeu Jorge, retribuindo o sorriso enquanto abria e colava o adesivo no pescoço, num local discreto. Obrigado. E tu?

— Eu não preciso — gozou Gui, encolhendo os ombros. — O meu pêssego nunca foi tão forte como o teu morango.

        O adesivo funcionou parcialmente, pois não conseguiu esconder totalmente o aroma de morangos de Jorge.

        Comeram uma torrada às pressas, beberam café, trocaram olhares cúmplices e nervosos.

— Sabes, Gui… — começou Jorge, engolindo em seco. — Não pensei que este dia fosse chegar tão depressa.

— Nem eu. Mas estamos juntos — murmurou Guilherme.

        Saíram de casa apressados, o ar frio da manhã a despertar-lhes os sentidos. Decidiram ir a pé — o edifício ficava relativamente perto.

        Ao chegarem ao edifício, foram recebidos por um átrio amplo, perfumado com café fresco. O ar estava carregado de feromonas misturadas — alfas, betas, ómegas — e Gui sentiu o estômago apertar-se sem saber bem porquê.

        A beta que os atendeu sorriu com simpatia:

— Oitavo andar, por favor. Lá encontrarão as instruções para os candidatos.

         Atravessaram o átrio em direção aos elevadores, Jorge de passo decidido, Gui um pouco atrás, os olhos a percorrer o espaço.

         No elevador, Jorge tentou aliviar o ambiente:

— Lembras-te quando dizíamos que íamos mudar o mundo juntos? Hoje é o primeiro passo, Gui.

— Mesmo que seja só um pequeno passo — respondeu Guilherme, apertando-lhe o braço.

        Ao chegarem ao piso indicado, encontraram uma sala cheia de candidatos. Sentaram-se lado a lado.

— Isto está complicado… — murmurou Jorge.

       Guilherme assentiu, o olhar firme:

— Tentar não custa.

         O tempo arrastou-se. Um a um, os candidatos foram sendo chamados, a sala esvaziando-se devagar, até restarem apenas os dois amigos — os últimos da fila.

         O estômago de Guilherme apertou-se quando a voz clara da rececionista ecoou:

— Sr. Guilherme Afonso?

        Respirou fundo, levantou-se e tentou controlar as mãos trémulas. Seguiu a beta até à porta da sala de entrevistas, o coração a bater descompassado. À entrada, anunciou-se:

— Drs., o Sr. Guilherme.

        Quando entrou, ficou imóvel. Pálido. O olhar preso nos dois alfas à sua frente.

        E então viu o louro.

        O nervosismo intensificou o seu aroma de pêssego — íntimo, revelador, impossível de esconder.

       O alfa louro ergueu o rosto, atraído pelo cheiro doce. Os olhares cruzaram-se. Por breves segundos, ficaram presos naquele instante, partilhando um silêncio carregado de lembranças e tensão. Guilherme baixou a cabeça, as bochechas a arder, as mãos suadas, o peito apertado.

— Bom dia. Por favor, sente-se. Mário… onde estão os teus bons modos?

        Só então Mário piscou, como se regressasse ao presente.

— Desculpem… distraí-me. Bom dia, Sr. Guilherme.

        Por dentro, porém, o pensamento era outro: Então o teu nome é Guilherme… fica-te bem.

        A entrevista foi rápida. Quando saiu, Guilherme sentia que o chão lhe fugia dos pés. A esperança de conseguir o emprego para Jorge pesava-lhe nos ombros. Queria ser forte, mas a confusão dominava-lhe os pensamentos.

         Mário manteve-se em silêncio o tempo todo, observando-o — o que só aumentou o desconforto de Guilherme.


🍃 🍃 🍃


        Minutos depois, Guilherme saiu da sala e procurou Jorge, tão pálido que parecia ter deixado a alma para trás. Sentou-se devagar, olhos baixos, dedos inquietos no tecido das calças. O silêncio entre eles tornou-se pesado, até que murmurou, num fio de voz:

— Acho que estou tramado.

        O desabafo saiu, mas a tensão ficou.

        Jorge inclinou-se para ele, preocupado:

— Porquê?

         A pergunta ficou suspensa no ar, como se o ambiente tivesse ficado mais denso.

         Guilherme hesitou, a voz trémula:

— Depois conto-te, ok?

        Antes que Jorge pudesse insistir, a voz de Maria cortou o silêncio:

Eles são piores do que aparentam. — Sorriu. — No fundo aqueles alfas têm um coração de ouro… só não sabem como amar.

        Guilherme tentou sorrir-lhe, mas o peso do que acabara de viver ainda pairava no ar. Sentia que tudo podia mudar — para ele, para Jorge, para ambos. E, enquanto o amigo se levantava, percebeu que o verdadeiro teste ainda estava por vir.


🍃 🍃 🍃


        Após a saída de Guilherme, Henrique notou a postura incomum de Mário. O silêncio pesado do amigo — normalmente expansivo, seguro — parecia encher a sala como uma névoa densa. Havia algo ali que Henrique não alcançava.

— Que se passou contigo, Mário? — perguntou num tom baixo.

         Mário desviou o olhar. Os ombros tensos. A respiração curta. A voz, quando saiu, trazia um tremor quase impercetível:

— Falamos depois. Apenas… deixa o currículo dele de fora.

         Henrique reconheceu o pedido silencioso por espaço. Não insistiu.

— Ok — respondeu apenas, com um leve sorriso compreensivo.

        O silêncio entre eles não era desconfortável — era um cuidado mútuo, um tempo concedido.

        O som metálico do intercomunicador interrompeu o momento.

— Maria, pode entrar o próximo.

— Certo! É o último!

        A interrupção trouxe alívio e empurrou para mais tarde a conversa que ambos sabiam que ainda viria — e o que nenhum dos dois ainda sabia como dizer.


🍃 🍃 🍃


        Jorge enrijeceu ao ouvir o seu nome. Levantou-se com mãos trémulas. Parte de si desejava que tudo terminasse depressa, só para acabar com a ansiedade que lhe apertava o estômago; outra parte agradecia por ter mais alguns segundos para se preparar.

        O cheiro forte de alfa vindo da sala de entrevistas fez o seu lobo interior agitar-se. A pressão da hierarquia era impossível de ignorar, por mais que tentasse manter a compostura.

        Por trás da secretária, Maria observava tudo com o profissionalismo habitual.

        Jorge olhou para Guilherme, que permanecia calado, perdido nos próprios pensamentos. Tentou controlar a respiração, focando-se nos pequenos sons à sua volta: o tique-taque do relógio, o ranger distante de uma cadeira, o murmúrio abafado no corredor.

        E se me bloquear? E se perceberem o quanto estou nervoso?

        Os pensamentos atropelavam-se, cada um mais inquietante que o anterior. Tentou lembrar-se dos conselhos de sempre — respira fundo, mantém a calma — mas naquele momento tudo parecia mais difícil.

        Quando finalmente o chamaram, foi conduzido até à porta da sala. Os dois advogados estavam absortos nos papéis à sua frente. Mas não foi isso que o perturbou — foi o moreno.

        Assim que o aroma doce de morangos se espalhou, os olhos do alfa escureceram, tingindo-se de um rubor profundo. O lobo dele rosnou por dentro, e Jorge sentiu o perigo crescer no ar, palpável, quase elétrico.

        Recuou instintivamente até à parede fria. O terror apertava-lhe o peito — e por cima do terror, a vergonha.

         Respira, Jorge… inspira, segura… solta devagar.

        Tentava seguir o ritmo, mas cada inspiração vinha curta, cortada pelo receio. As lágrimas ameaçavam cair.

         Porque é que ele reage assim? Está zangado comigo? E se perder o controlo?

        O medo e o fascínio misturavam-se, deixando-o preso àquele olhar intenso, incapaz de se mover.

        Mário percebeu a espiral de tensão e interveio com firmeza:

— Sr. Jorge!... Por favor, SAIA e já chamamos!

         A palavra "SAIA" ecoou, arrancando Jorge do transe.

         Saiu num relance, encostou-se à parede do corredor e deixou-se deslizar até sentir o frio nas costas.    A respiração continuava descompassada; contava até quatro, inspirava lentamente, tentando enganar o corpo e convencer-se de que estava seguro. Mas o peito doía, os pensamentos embaralhavam-se.

         Preciso de acalmar… não quero que me vejam assim… não posso perder o controlo.

        Cada lágrima que caía era uma mistura de humilhação e alívio, enquanto o cheiro de morangos ainda pairava no ar, e o olhar rubro do alfa o perseguia na memória.


🍃 🍃 🍃


        Mário, atento ao amigo, percebeu que Henrique tinha sido profundamente afetado pela presença do jovem ómega. O lobo interior de Henrique manifestara-se de forma súbita, perigosa.

— Henrique! Henrique!

        Mas o amigo não reagia.

        Sem hesitar, Mário ergueu a mão e deu-lhe um estalo forte. A confiança entre ambos permitia esse gesto sem ressentimentos.

        Henrique piscou, voltando a si.

— Obrigado, Mário… — murmurou, ainda confuso. — Não sei o que se passou. Foi como se tudo desaparecesse. Só existia aquele cheiro. O meu lobo ficou… fora de controlo. Nunca senti nada assim.

         Mário cruzou os braços, preocupado.

— Achas que consegues aguentar? O pobre ómega ainda está lá fora. Não quero que ele pense que fez algo errado.

        Henrique respirou fundo.

— Vou tentar. Mas… se puderes, pede-lhe para disfarçar o cheiro. Eu sei que não é justo, mas está a ser difícil manter a compostura. E… consigo sentir o medo dele. É quase palpável.

        Mário assentiu e saiu.

        Encontrou Jorge encostado à parede, ainda abalado.

— Sr. Jorge, está melhor? Consegue diminuir um pouco as suas feromonas?

       O ómega limpou discretamente o rosto.

— Sim… estou a tentar. Quer que eu vá embora? Não quero causar problemas… é o mínimo que consigo.

— Não é o senhor que está a causar problemas — garantiu Mário. — Só preciso que tente mais um bocadinho. Não queremos que se sinta desconfortável.

        Jorge suspirou.

— Vou tentar, prometo.

— Obrigado. Pode entrar quando quiser.

        Jorge entrou, evitando o olhar de Henrique. O alfa ergueu-se, já mais calmo.

— Sr. Jorge… peço desculpa pela minha reação. Não queria assustá-lo. Não é culpa sua.

— Não tem problema — murmurou Jorge, tentando aliviar o ambiente. — Acontece.

         A conversa foi breve. Mário concluiu:

— Em breve daremos notícias. Obrigado por ter vindo.

         Jorge saiu com o coração acelerado. O corredor parecia mais longo, o ar mais pesado. Sentia-se esgotado, como se tivesse deixado ali dentro uma parte de si.

         O escritório fervilhava de movimento: secretárias apressadas, advogados em murmúrios, o cheiro a café e papel. Tudo parecia demasiado perfeito, demasiado distante da sua realidade.

         Ao chegar à sala de espera, encontrou Guilherme inquieto.

— Então? — perguntou Gui, tentando sorrir.

         Jorge hesitou. O olhar de Henrique ainda o perseguia. O seu lobo também.

Não sei… acho que correu melhor do que esperava, mas… houve um instante em que… Quando vi o Henrique, foi estranho. Senti o meu lobo inquieto, como se o reconhecesse. O olhar dele… mexeu comigo de uma forma que nunca senti antes.

— O Henrique? O advogado moreno? Como sabes o nome dele? — perguntou Gui.

         Jorge assentiu, com um sorriso brincalhão no rosto:

— Eu faço o trabalho de casa. Sabias que atualmente existe uma coisa chamada internet?

        Guilherme pousou uma mão no ombro do amigo.

O importante é que já passou. Agora é esperar.

         Por um instante, Jorge respirou. O pior já tinha ficado para trás — ou assim esperava. Olhou à volta: eles eram os últimos, já não havia mais candidatos na sala, apenas o silêncio e o céu nublado a tingir o escritório de uma luz cinzenta, tornando tudo mais frio e impessoal.

         Ao lado de Guilherme, sentiu que, pelo menos, não enfrentaria o futuro sozinho.

         Quando se preparavam para sair, Maria ergueu os olhos do computador e ofereceu-lhes um sorriso compreensivo. O aroma neutro dela era um bálsamo naquele ambiente carregado de tensão.

— Correu bem? — perguntou num tom gentil, olhando de Jorge para Guilherme, como quem já vira aquela ansiedade muitas vezes.

         Guilherme respondeu primeiro, tentando aliviar o ambiente:

— Acho que sim. O Jorge sobreviveu, pelo menos.

         Maria soltou uma risada breve, sincera.

— Sobreviver já é meio caminho andado por aqui. — Depois inclinou-se um pouco, num tom de confidência: — Não liguem muito à postura dos alfas. Eles gostam de impressionar, mas no fundo são todos iguais.

        Jorge sorriu, sentindo o lobo interior relaxar com a leveza da beta.

— Obrigado. Precisava mesmo de ouvir isso.

        Ela acenou, voltando ao trabalho, mas não sem antes lançar-lhes um olhar encorajador.

— Se precisarem de água ou de um momento para respirar, podem usar a sala de espera ali ao fundo. E boa sorte, a sério.

        Enquanto se afastavam, Jorge e Guilherme trocaram um olhar cúmplice. O escritório parecia menos opressivo, e Jorge sentiu que, mesmo num mundo de hierarquias e feromonas, ainda havia espaço para pequenos gestos de humanidade.


🍃 🍃 🍃


         Os dois jovens regressaram a casa em silêncio, cada um mergulhado nos próprios pensamentos. O ar parecia mais denso, impregnado do cheiro dos seus lobos — ansiedade, expectativa, confusão.

Já era tarde quando saíram, e a fome apertava. Prepararam algo rápido e, ao sentarem-se, Gui logo expressou preocupação com o amigo.

— Então… queres dizer-me o que se passou lá dentro?

          Jorge assentiu. Precisava de partilhar o peso do que sentira. Contou tudo: o olhar vermelho, o rosnar silencioso do lobo do alfa, a pressão instintiva que o fizera recuar… e, ao mesmo tempo, algo mais profundo.

        Porque o que o perturbara verdadeiramente não fora o medo.

        Fora a paz.

        Aquela sensação estranha, quase reconfortante, que o envolvera no instante em que o alfa reagira. O cheiro dele — pinho e baunilha — acalmara o seu lobo, como se o reconhecesse. Como se houvesse ali algo inevitável.

        Jorge inspirou fundo antes de confessar:

Sabes o que mais me assustou? — Jorge afastou o prato para o lado, os olhos fixos na mesa. — Não foi a reação dele. Claro que aqueles olhos vermelhos intimidaram o meu lobo. Mas… — A voz vacilou, como se a admissão custasse mais do que o medo em si. — Senti que ele não me ia magoar. O meu corpo inteiro reagiu. Senti vontade de me aproximar, de baixar a guarda, como se o meu lobo reconhecesse ali o seu alfa. E isso… isso foi o que me assustou. A paz. O conforto. Como se o vínculo estivesse prestes a acontecer.

      Gui franziu o sobrolho, preocupado.

— Estranho isso tudo. Se fores chamado… consegues lidar com a situação?

         O silêncio instalou-se. Ambos sabiam que ligações instintivas assim eram raras — e perigosas.

        Jorge hesitou, procurando as palavras certas.

— O meu lado humano está inseguro. Mas o meu lobo… está confortável. Quer voltar a encontrá-lo. Isso é o que me assusta. Mas, com tanta gente e tanta experiência, duvido que nos voltemos a cruzar. Mas e tu? O que te aconteceu?

         A mudança de assunto apanhou Gui de surpresa.

— Não reconheceste o louro?

         Jorge piscou, confuso.

— Não! Deveria?

         Gui desviou o olhar, os dedos inquietos no relógio. Jorge sentiu o coração acelerar.

— Como assim? O alfa… aquele… ontem à noite? — a voz falhou-lhe.

         Gui suspirou, trémulo.

— Sim, Jorge. Era ele. Quase fui para a cama com ele ontem. Juro que não foi por querer… foi… — esfregou as mãos, como se tentasse limpar a confusão.

         Jorge arregalou os olhos.

— Não pode ser. Não faz sentido. Quais são as hipóteses? Isto está tudo estranho demais.

         Gui deu um sorriso nervoso, evitando o olhar do amigo.

— Eu sei. Estou tramado. Ele deve pensar que sou um miúdo, sem experiência… Mas não! — olhou para o amigo, quase implorando compreensão. — Não consigo evitar, Jorge. — Gui baixou os olhos para as mãos, como se as palavras custassem a sair. — Ele mexe comigo. Com o meu lado humano e com o meu lobo. Quero voltar a vê-lo, mais do que devia. — Passou a língua pelos lábios, quase sem dar conta. — O cheiro dele ficou em mim… como se o meu corpo o reconhecesse e pedisse por mais.

        O silêncio caiu entre eles, pesado.

        Jorge engoliu em seco.

— Estamos tramados, Gui.

         Ambos sorriram — um sorriso sem verdade, carregado de medo e expectativa.


🍃 🍃 🍃


        Terminadas as entrevistas, a fome e a vontade de conversar levaram Henrique e Mário ao restaurante habitual, a poucos minutos do escritório. Ao entrarem, o aroma de especiarias misturava-se ao perfume dos clientes, criando uma atmosfera acolhedora para sentidos tão aguçados. A mesa já estava reservada — hábito da equipa, que ali encontrava um espaço seguro, quase familiar.

— Eu começo, Henrique. A minha história é mais curta do que a tua — disse Mário, sorrindo, enquanto tentava controlar a inquietação do seu lobo.

         O ambiente descontraído ajudava a acalmar os instintos.

— Porque reagiste assim quando viste o rapaz? —perguntou Henrique, curioso.

         Mário inclinou-se para a frente, os olhos brilhando.

— Eu disse-te que ontem encontrei um ómega fantástico, não disse?

         Henrique arregalou os olhos.

— Sim… espera. Estás a dizer-me que era o mesmo rapaz? O mesmo com quem quase foste para a cama? Bolas, devias jogar no Euromilhões. A probabilidade de isso acontecer é uma em um milhão.

— Exato. Acho que é o destino a agir — disse Mário, sincero. — Não fui só eu. O meu lobo também reagiu. Assim que ele entrou, senti o cheiro doce dos pêssegos. O meu lobo ficou ativo. Foi difícil de controlar.

         Henrique sabia que o amigo estava a ser honesto. Mário nunca tivera o lobo envolvido em nenhum dos seus relacionamentos. Aquilo era raro. Profundo. Instintivo.

— Por isso o pobre rapaz ficou branco quando te viu —comentou Henrique. — E não me pareceu um jovem da noite.

— Também acho que não. Ele mexeu comigo de uma forma que nunca tinha sentido e pelo jeito como reagiu, sei que eu mexi com ele também. Ainda sinto o cheiro dele. O meu coração acelerou. Tive vontade de o proteger, de o envolver nos braços. Não era só desejo. Queria carinho. Queria marcar. Queria dizer: "és meu". O meu lobo reclamou-o. Henrique… acho que ele é o meu Soulmate.

         Henrique ficou em silêncio por um instante, absorvendo a intensidade da confissão.

— Compreendo-te mais do que imaginas — disse, por fim. — Assim que aquele ómega entrou e o meu lobo sentiu o cheiro dele… o instinto de proteção foi imediato. Senti um contacto entre os nossos lobos. Pensei: "Este ómega é meu". E comecei a captar algumas das emoções dele. Quero um vínculo duradouro. Quero marcá-lo. Não vou abrir mão disto.

         A convicção na voz de Henrique era absoluta.

Isto tudo é estranho, mas acho que as coisas acontecem por um motivo — disse Mário, rindo. — Acho que acabou a nossa vida de solteiros. Agora só falta conquistá-los.

Nem parece difícil, pelo jeito como reagiram quando nos viram — disse Henrique, sorrindo. — E tenho a impressão de que também já encontrámos os nossos novos secretários.

        Mário riu, contagiado pela leveza do amigo.

— Concordo plenamente.

          Entre sorrisos e provocações, perceberam que o maior desafio ainda estava por vir. E tinha cheiro a morangos e pêssego.

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